POR FRANCISCO EDSON ALVES
Rio - Os cariocas estão se antecipando às medidas ‘antimendigo’ da Prefeitura do Rio, que, como noticiou ontem O DIA, vem colocando pedras e grades em locais públicos para impedir a instalação de população de rua. Sem esperar que os obstáculos da Companhia de Limpeza Urbana (Comlurb) cheguem à sua porta, há quem vede com tijolo e cimento a entrada de imóvel sob risco de invasão ou instale vasos de plantas e grades pontiagudas para afastar ‘vizinhos’ indesejados.
No Edifício Praça da Cruz Vermelha, na Rua Mem de Sá, Centro, moradores espalharam 10 vasos na calçada. “Os andarilhos que ficam na praça fazem de nossas portas seus banheiros. Ninguém aguentava o mau cheiro de fezes e urina, por isso decidimos obstruir o local”, contou uma moradora, que não quis ser identificada. “Entre os mendigos, há assaltantes e viciados”, justificou.
No número 234 da mesma rua, a porta que dá acesso aos sete andares do imóvel do INSS foi fechada com tijolos e é guardada por seguranças, tudo para impedir invasão. Em julho, 20 famílias ocuparam os cômodos, esvaziados após confronto com a polícia. “Todas as manhãs, perdemos um bom tempo limpando a sujeira deixada pelos mendigos”, lamentou Emerson de Aquino, 34, gerente de lanchonete próxima.
No entorno da Rodoviária Novo Rio, no Santo Cristo, empresas de ônibus afixaram grades. Mesmo assim, moradores de rua pulam os obstáculos para dormir em canteiros. Ontem, havia jornais, cobertores e quentinhas no local. A Socicam, que administra o terminal, diz que frequentemente menores se drogam e atacam turistas e motoristas. A empresa pede aos órgãos competentes para que os moradores de rua sejam recolhidos, mas eles sempre voltam.
Ontem, agentes da Secretaria Especial da Ordem Pública acolheram 72 moradores de rua — 30 menores — na Glória, Largo do Machado, Catete, Parque do Flamengo e Praia de Botafogo. “As operações de acolhimento serão feitas constantemente. Não permitiremos que praças e vias públicas se transformem em moradia para população de rua”, afirmou o coordenador da operação, Marcelo Maywald.
Ação judicial contra as iniciativas
As polêmicas medidas ‘antimendigo’ da prefeitura, como instalação de pedras sob viadutos e obstáculos de ferro sobre bancos de praça, serão alvo de ação na Justiça. O coordenador do Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos da Defensoria Pública do estado, Leonardo Rosa Melo da Cunha, estuda medida judicial para impedir a iniciativa municipal. Particulares também poderão ser alvo de processo.
Para ele, a solução é discriminatória: “As medidas são dirigidas a parcela marginalizada da sociedade, numa espécie de limpeza social. Isso fere os direitos humanos”. A Comlurb não comentou.
Fonte: O Dia