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Tráfico ameaça a Cidade da Polícia

24-02-2010

                                                POR LESLIE LEITÃO

Rio - Com uma mira a laser acoplada a uma pistola e uma caneta de luz, bandidos apontam em direção ao ponto mais alto da região. O terraço de observação incomoda os bandidos que dominam o Complexo de Manguinhos. Há dois meses, policiais civis se revezam em plantões de 24 horas para garantir a normalidade no local. Pelo menos dentro dos muros que cercam o terreno de 41,6 mil metros quadrados, no cruzamento das avenidas dos Democrático e Dom Hélder Câmara, que abrigará, até o fim do ano, a Cidade da Polícia, sede de quase todas as unidades de delegacias especializadas.
 

Para quem vive ao redor, ainda é cedo sonhar com dias de paz. Não há, por ora, perspectivas de instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) ali. Mas nessa relação impossível de convivência, é daquele ponto elevado que a Polícia Civil tenta traçar sua estratégia para retomar um território onde a cidade parece ter morrido, abandonada pelo Estado.

A situação é tensa. Quem se reveza na vigilância do local faz rondas a pé, em grupo, para impedir que os bandidos invadam. O que acontece da porta para fora, pelo menos por enquanto, não há como controlar ou impedir. Viciados em crack estão por toda a extensão da avenidas. Catam lixo, gritam, consomem drogas. Uma das bocas de fumo funciona do outro lado da rua, 30 metros adentro.

O entra e sai de viciados impressiona. Jovens, velhos, taxistas. Um motorista de Kombi para no acesso. Deixa os passageiros esperando por 2 minutos e 13 segundos. É o tempo que leva para comprar o que queria e seguir viagem. Duas jovens não se preocupam em consumir fora dali. Uma delas prepara o pó, no meio da rua, e cheira a cocaína na calçada.

Não existe preocupação com os homens da lei. Os policiais civis estão confinados dentro da sede que precisam proteger: “Trazemos alguma coisa para comer, fazemos churrasco aqui dentro, porque não tem como ficar saindo de madrugada. É uma situação arriscada demais”, admite um inspetor.

A Polícia Militar, responsável pelo patrulhamento nas ruas, também ignora a área. Durante toda a noite, nenhuma viatura passou. Raros também são carros de passeio. Como só quem se aproxima são viciados, os bandidos também ficam à vontade. “Vai morrer aí na laje, verme safado!”, grita um deles, provocando os agentes.

O ponto de observação da polícia não é novidade para ninguém em Manguinhos. E a intimidação vem em forma de tiros de balas traçantes (que colorem o céu) disparadas para o alto vez por outra.

Área, por enquanto, é dos criminosos

Além da mira a laser da pistola, outro feixe de laser é usado pelos bandidos. Binóculos já estão espalhados por toda parte da favela. E os olheiros fazem questão de acenar e mostrar que estão atentos aos movimentos da polícia. Com um fuzil AR-15 na mão, um criminoso usa a luneta para observar a torre. Ele ameaça atirar. “Fuzil!”, grita um policial. O bandido cruza de um beco para o outro e some. Perto dali, no vaivém de motos, outro grupo de homens se esconde na escuridão. Todos tentem enxergar a movimentação na torre.

O rap no último volume ecoa entre os barracos às 2h15, ignorando a maioria trabalhadora que precisa acordar cedo para mais um dia de batente. Enquanto isso, os viciados não param de chegar. O taxista estaciona o carro ao lado de outros quatro que estão parados. Vai à boca de fumo, compra e volta. Os demais ficam. O ‘ponto’ é movimentado.

Por dentro da sede da futura Cidade da Polícia, há marcas de bala por toda parte. Até no vidro duplo colocado numa sala. Sinal de que aquela área, pelo menos por enquanto, ainda é dos bandidos.

Fonte: O Dia


 
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